Jovem encontra no design de joias a paixão de uma vida inteira

A novela Império, que estreou na Rede Globo em 2014, conta a história de José Alfredo de Medeiros (Chay Suede/Alexandre Nero). Após uma decepção amorosa, o “comendador” resolve partir rumo ao desconhecido e acaba caindo de paraquedas na exploração de pedras preciosas.

Anos depois, já consolidado no ramo, Zé Alfredo se torna dono de uma grande rede de joalherias. Entre seus 3 filhos, está Maria Clara (Andreia Horta) — a preferida do pai — uma renomada designer de joias, cotada para substituí-lo frente aos negócios.

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JUH ALMEIDA/ESPECIAL PARA HUFFPOST BRASIL

Foi sentada no sofá de casa, ao lado da mãe, que a novela das 21h revelou a Marcela Cordier, de 23 anos, a ocupação que ela nem sabia que existia, mas que, ao mesmo tempo, sempre sonhou em ser.  “Eu tava assistindo à novela e vi a personagem desenhando um anel. Sabe aquele estalo que você tem? Eu olhei para minha mãe e falei: ‘como é que eu nunca pensei nisso? É isso que eu quero’. “Sabe aquele estalo que você tem? Eu olhei para minha mãe e falei: como é que eu nunca pensei nisso? É isso que eu quero.”

Que tinha um lado voltado para as artes, todo mundo sabia. Nascida em Salvador, onde mora até hoje, sempre dava um jeitinho de incluir nas brincadeiras com a prima, Sofia Pereira, da mesma idade, alguma atividade lúdica. “Quando a gente era criança, chegamos a montar uma fábrica de bijuterias. A gente pensava, fazia e depois vendia. Conseguimos 20 reais para cada nessa brincadeira, ficamos super orgulhosas”, se diverte.

O interesse pelas joias veio a partir da avó, Ana Cordier, moradora de Ilhéus, no sul da Bahia. “Quando ela vinha para cá, ou eu ia para lá, a gente passava horas vendo as joias dela, ela ama. E eu ficava viajando naquilo, era doidinha pelas joias. Mas eu não sabia que existia essa profissão, nunca tinha me tocado.”

Desenhar era um hábito. Aos 11 anos, pediu para entrar numa aula de pintura — um quadro que expôs na escola, com o tema Orixás, chegou a atrair compradores, mas ela deixou passar pela baixa idade. Quando ficou grandinha demais para continuar na turma, se distanciou do ofício, mas não completamente. “Eu nunca larguei por completo. Quando dava vontade, comprava um tela e fazia.”

História

Tímida incorrigível, encarava o hábito como uma maneira de se expressar além das palavras. “A arte sempre me ajudou muito. Principalmente a botar para as coisas para fora. Eu sou muito tímida, então, para mim, é como uma forma de terapia.” O hobby era tão conhecido por aqueles que a cercam que quando decidiu cursar Engenharia Civil na faculdade, surpreendeu.

Foi assim, até a metade do curso, quando recebeu aquela ajudinha da teledramaturgia. “No dia seguinte ao que eu vi a personagem na novela, fui atrás de algum livro que falasse sobre o design de joias em uma livraria. Só achei um, que ensinava a desenhar as joias. Comprei e comecei a fazer em casa, sozinha, treinando”, contou. As aulas de pintura, quando pequena, somadas às de desenho técnico na universidade, ajudaram Marcela a conseguir bons resultados em um ritmo vertiginoso.

“Em junho de 2015, uma pessoa que vendia joias para mim veio aqui em casa, e eu acabei mostrando alguns dos meus desenhos para ela. E ela me disse: ‘Marcela, você tem que investir nisso’.” Contou a ideia ao pai, que foi sucinto na resposta: “se jogue”. Trancou a faculdade, fechou todas as questões burocráticas em 3 dias, e, no auge de seus 21 anos, se mudou para São Paulo a fim se aprofundar no ofício. “Foi tudo muito rápido, ninguém entendeu nada, meus colegas ficaram assim: ‘qual é o seu problema?’. Mas foi a melhor coisa que eu fiz, porque é realmente o que eu quero.”

Nas aulas, aprendeu a imaginar a joia no papel e conseguir reproduzi-la na matéria-prima. “Ver a joia que você criou se concretizando na sua frente é surreal. Eu fiquei doida. Eu fui para desenhar, não sabia exatamente como seria depois e de lá o pessoal já tava me procurando, querendo ver as minhas coisas, comprar o que eu fazia.”

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Depois de 5 meses, voltou para casa com as ferramentas na mão e um milhão de ideias na cabeça. Decidiu que montar a própria empresa: “o nome, Cordier, é o sobrenome da minha avó — eu nem tenho ele no nome. Mas tinha que fazer uma homenagem a ela, porque, querendo ou não, foi ela quem me levou a gostar disso”.

Ao lado de um ourives que a ajuda a executar as obras que ela desenha, Marcela cuida de todas as outras partes da empresa. Depois de duas coleções menores — uma inspirada nas mandalas e outra na Rainha do mar —, partiu para o seu primeiro grande acervo, orientado pela Flor de Lótus, em celebração ao Outubro Rosa.

Caminhada

“Eu vejo a joia como uma arte. Não como uma coisa fútil, mas como algo que é eterno. As joias que vieram de minha avó têm história, marcaram momentos. A Flor de Lótus tem um significado muito grande de força e de coragem, e eu achei que tinha tudo a ver com o tema”, explica.

Já com 3 coleções no currículo, resolveu partir para a empreitada mais desafiadora até agora: retratar a Bahia. Mas sem baianês de emissora do sudeste; a Bahia mesmo, raiz. “Quis homenagear a Bahia, porque tenho com ela uma ligação muito forte. E queria retratar isso, mostrar outra visão. E é um desafio né, porque a Bahia já é uma coisa bem manjada – mas eu queria fazer diferente”.

Começou a viajar pelo Recôncavo Baiano, a frequentar o Pelourinho e estudar as estampas de Alberto Pitta, diretor-artístico do Cortejo Afro. “Fui conversando com um monte de gente, para reunir tudo numa ideia só, porque é muito amplo e exige respeito.” Depois de muita andança e pesquisa, resolveu se debruçar sobre 3 temas: o samba de roda, a capoeira e o candomblé.

“Sempre gostei de pesquisar, entender sobre o assunto, para ter conteúdo. Não tô desmerecendo os outros, mas gosto disso. Às vezes as pessoa até se identifica mais.” Para a exposição de lançamento, escolheu o Palacete das Artes, na Graça, local onde geralmente as artes mais tradicionais costumam dar o tom. Junto às joias, resgatou o hábito de infância e expôs também quadros que fez durante o processo, inspirados nas mesmas temáticas.

Ainda divulgando a coleção BAHIAS, após apenas 3 anos de carreira, lamenta a desvalorização das artes como um todo em Salvador, mas diz que prefere olhar para frente, com pensamento positivo. Sobre um possível retorno à engenharia, é sucinta: “Tchau, tchau. Já peguei o diploma e falei nunca mais. Eu quero seguir nas joias e cabou”.

Fonte: Huffpost Brasil

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