Ruanda, o país com o parlamento mais feminino do mundo

Ruanda é considerada um exemplo de participação feminina na política, e quebrou seu próprio recorde nas eleições legislativas realizadas em setembro deste ano.

O número de mulheres no parlamento saltou de 64% para 67,5%.

Esse percentual significa que, dos 80 assentos do parlamento, 54 são ocupados por mulheres. Segundo uma estimativa da emissora americana NPR, em nenhum país do mundo a representação feminina no parlamento é tão alta.

Além disso, o país ocupa uma posição de destaque em um recente ranking de igualdade entre sexos, elaborado em 2015, pelo Fórum Econômico Global: o país ficou na 6ª posição, entre 145 países analisados no quesito. Para se ter uma ideia, os EUA ficaram em 28º lugar, e o Brasil na 85ª colocação (confira aqui o ranking na íntegra).

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Foto: Flickr/Rwanda Government)

Tal fato faz Ruanda ser considerada um exemplo de ascensão feminina, não só no continente africano, mas no mundo. Porém, essa aparência de viver num país onde não há barreiras ou discriminação contra mulheres não é tão real quanto parece. Para compreender isso, é preciso, antes, entender como a mulher conquistou um papel tão proeminente na política ruandesa.

Obstáculos a enfrentar

Um exemplo disso foi citado em um estudo feito pela ruandesa Justine Uvuza, que entrevistou várias mulheres em posição profissional de destaque para entender como isso reflete na vida familiar. Ela descobriu que, salvo raras exceções, não importa o quão empoderadas essas mulheres sejam na vida pública, isso não se estende à vida familiar.

“Uma delas contou como seu marido exigia que ela garantisse que seus sapatos fossem lustrados, que a água estivesse preparada para ele tomar banho e suas roupas estivessem passadas. E o marido exigia que os sapatos não apenas estivessem prontos pela manhã, mas que estivessem com as meias em cima de cada um. E ele queria que isso fosse feito por sua esposa, a parlamentar”, narra Justine (confira aqui o estudo na íntegra).

Em seu estudo, Justine relata inúmeras histórias como esta, que revelam que na sociedade ruandesa as tarefas domésticas ainda são papel das mulheres. Em raras ocasiões, há a opção de contratar uma diarista ou de contar com a ajuda do marido para essas funções.

Algumas mulheres temem sofrer violência doméstica, caso não cumpram essa expectativa. Uma delas relatou a Justine que se sentia tão presa que chegou a pensar em suicídio. Em outras palavras, as parlamentares ruandesas têm poder para elaborar leis, mas temem impor sua voz no ambiente doméstico, uma vez que a violência física e verbal ainda é um problema persistente no país.

Para lidar com essa questão, a Organização das Nações Unidas (ONU) levou para o país a campanha #HeforShe, uma iniciativa global para estimular meninos e homens a remover as barreiras culturais que impedem as mulheres de alcançar todo seu potencial.

Apesar dos desafios a serem enfrentados, é inegável que Ruanda é um exemplo de empoderamento feminino que inspira mulheres de outros países do continente africano. É o que apontou Ngozi Cole, de Serra Leoa, em entrevista concedida à rede Al Jazeera, durante a celebração do Dia Internacional da Mulher deste ano.

“Em nosso país nós sequer chegamos perto do exemplo de Ruanda, de ter um parlamento onde mulheres representam mais de 64%. Minha esperança é continuar lutando por mais progresso em termos de participação política e mais leis que empoderem as mulheres e tornem suas vidas mais fáceis”, disse Cole.

Fonte: Opinião e Notícia

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